Skip to main content

(Opinião) Urgência e planeamento a longo prazo da reestruturação da Administração Pública

 NELSON KOT* 29 May, 2026


Recentemente, o Secretário para a Administração e Justiça do Governo da RAEM, Wong Sio Chak, anunciou vários planos de reestruturação de serviços públicos. As acções, tomadas de forma célere, envolvem um número recorde de cargos de direcção e chefia, bem como de trabalhadores em transição, o que tem gerado ampla atenção na sociedade. Concordo com a orientação da reforma administrativa, mas estou profundamente preocupado.

A questão central reside em saber se este processo de reforma está a acontecer de forma demasiado apressada. Por que razão não é possível adoptar um plano quinquenal para alcançar, de forma gradual, uma optimização estável da estrutura orgânica da Administração Pública?

Não há dúvida de que esta reestruturação de serviços públicos é a mais profunda reforma na Administração Pública desde a transferência de soberania, estando em conformidade com os princípios fundamentais de “clarificação das funções, simplificação e eficiência” previstos no Regime geral de organização e estrutura orgânica dos serviços e entidades públicos.

Há muito tempo que existem nalguns serviços públicos de Macau problemas de sobreposição de funções, estruturas organizacionais pesadas e falta de capacidade para coordenação interdepartamental, o que tem limitado a melhoria da eficácia da governação.

Esta reestruturação envolve vários serviços principais, como a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana, o Instituto para os Assuntos Municipais e a Direcção dos Serviços de Obras Públicas. Através de fusões, reorganização, transferência de funções e simplificação da estrutura orgânica, espera-se ver a resolução do problema crónico de “governação fragmentada” e a criação de um governo eficiente e orientado para a prestação de serviços.

Do ponto de vista da modernização da governação, a reforma é necessária e urgente, pelo que concordo com a lógica geral do Governo sobre a reforma.

No entanto, a pressa com que a reforma está a ser implementada tem gerado fortes reacções entre os trabalhadores da Função Pública e preocupações na sociedade.

De acordo com muitos funcionários públicos ouvidos pela nossa associação, esta reestruturação implica um vasto leque de áreas e uma grande escala de ajustamento de pessoal. Muitos cargos de direcção e chefia foram simplificados, e os funcionários de base enfrentarão incertezas quanto à transferência de cargo e à reorganização de funções.

A reforma administrativa envolve questões profundas relacionadas com direitos do pessoal, procedimentos de trabalho, cultura organizacional, entre outras. Uma ênfase excessiva na rapidez poderá negligenciar a estabilidade e a sustentabilidade da própria reforma. Os funcionários públicos são a força central na execução de políticas.

A insegurança e a confusão sentidas durante o período de transição poderão afectar a eficiência dos serviços, podendo mesmo provocar pedidos de demissão, o que contrariaria os objectivos iniciais da reforma.

Uma questão mais profunda reside em saber por que razão não se optou por um modelo mais prudente de planeamento quinquenal. A optimização da estrutura orgânica da Administração Pública é um projecto sistémico, em vez de uma tarefa que possa ser concretizada de um dia para o outro.

A experiência de regiões vizinhas mostra que este tipo de reforma exige estudos aprofundados, ampla consulta e implementação faseada, de modo a equilibrar a eficiência e a estabilidade. Um plano quinquenal permitiria um avanço faseado: numa fase inicial, concluir a organização das funções e a elaboração do plano; numa fase intermédia, realizar projectos-piloto e formação de pessoal; e, numa fase posterior, proceder à divulgação abrangente e à avaliação da eficácia.

Isto garantiria a concretização da reforma e daria também um período de adaptação aos funcionários públicos, alcançando assim um “avanço estável”. Em contraste, o modelo actual “célere” embora consiga produzir resultados rápidos, poderá deixar problemas no futuro devido à falta de preparação e de uma comunicação suficiente.

O objectivo central da reforma administrativa é melhorar a eficácia da governação e optimizar a prestação de serviços públicos, e não procurar simplesmente a velocidade e a dimensão da mudança. A determinação do Governo da RAEM em levar adiante a reforma é louvável, mas é também preciso ouvir a opinião pública e contemplar a estabilidade.

Sugiro ao Governo que, ao mesmo tempo que implementa os actuais planos de reestruturação, recolha as opiniões da sociedade, introduza medidas de garantia adicionais para o período de transição e defina, o mais rapidamente possível, um plano quinquenal de optimização da Administração Pública, combinando a reforma de curto prazo com o planeamento de longo prazo, para que a reforma seja ao mesmo tempo forte e sensível às necessidades das pessoas, permitindo assim uma transformação e modernização do sistema administrativo público de Macau e contribuindo para a prosperidade e estabilidade duradoura da RAEM.

 

*Presidente da Associação de Estudos Sintético Social de Macau

Comments

Popular posts from this blog

Merger of culture and sports bureaus to involve over 1,100 staff

Reestruturação da Função Pública já tem planos até 2028

Sugestões para a reestruturação de serviços públicos e a conjugação de funcionários